em Notícias

Por Janine Bitterncourt

Como os filmes que assisti no Festival de Cannes (aleatoriamente) definiram minha viagem.

2025 foi o primeiro ano em que consegui uma credencial para o Marché do Film em Cannes e pude acessar o site do Festival para reservar as obras da programação oficial. A bilheteria online abria às 7:00 da manhã de lá, 4 dias antes dos dias de exibição dos filmes. Isso significa que, por 3 madrugadas antes de viajar, meu despertador tocava às 2:00 da manhã de São Paulo, os filmes mais disputados esgotavam em segundos, a gente reservava os que sobravam, ficando acordada por mais de uma hora depois, brava, cheia de adrenalina, tentando resgatar o sono.

Meu primeiro filme foi Partir Un Jour, também a minha única première, que começava às 11:00 da noite, tinha uma diretora mulher e se revelou um musical leve, com a protagonista voltando à cidade natal para resgatar suas semelhanças com o pai, também chef. O segundo, um japonês chamado Brand New Landscape, também mostra as marcas da ausência de um pai, que prefere o trabalho de arquiteto aos filhos, pontuado com os silêncios da reaproximação entre eles. O terceiro fecha a minha trilogia família, o francês Que Ma Volonté Soit Faite que dói ao mostrar a inadequação que uma filha herdou da mãe, vivendo numa cidadezinha machista, ardendo (também em chamas) de vontade de ir embora dali.

Enredos universais sobre deslocamentos, rodados em diferentes partes do mundo, revelando o potencial da arte na cura da saudade que eu tenho dos lugares onde vivi e deixei gente que eu amo. Do outro lado do oceano, meu filho se despede de NY e encontra meus pais no Brasil depois de uma temporada de 3 anos fora, 2 deles comigo lá. Avós radiantes, enquanto eu ainda sofro para me desfazer dos pertences e memórias que deixei em NY quando fui impedida de voltar. C’est la vie.

Os três filmes seguintes tiveram o português como teletransporte para minha língua mãe. Factory Ceará Brasil é composto de 4 curtas filmados e editados em tempo recorde em co-produções internacionais, com histórias centradas em personagens femininas. O raro e precioso O Riso e A Faca (nome inspirado numa canção de Tom Zé) me deixou 3:40 colada na tela e merece algumas linhas a mais.

A pluralidade, riqueza de contrastes e imprevisibilidade comuns entre tantos expatriados costuram a história-metáfora da viabilidade de uma estrada entre a Europa e a Africa. Co-produzido pela brasileira Tatiana Leite, aborda temáticas contemporâneas como a relação colonizador-colonizado e consegue tirar o expectador da zona de conforto a todo momento. Pedro Pinho, o diretor português, disse que buscou uma desorientação controlada ou uma coreografia do caos, cruzando fronteiras linguísticas e mudando paisagens, com atuações orgânicas e um desabafo do/da personagem brasileiro/a Gui dizendo que não sente que está realmente ali, mas sim em muitos outros lugares do mundo ao mesmo tempo. I feel you, Gui.

Daí então chegam dançando frevo no tapete vermelho de Cannes (a estrada rumo ao reconhecimento mundial) o Kleber Mendonça e o Wagner Moura, com o brilhante O Agente Secreto. Falando de política (tão necessária), tem paralelos entre os tubarões do Recife e o filme Tubarão, lançado na época em que se passa parte do enredo e tem personagens femininas incríveis que encarnam a resistência (as fugitivas). Há 6 anos, ouvi os aplausos a Bacurau em Cannes com uma credencial emprestada e o vi ganhar o prêmio do júri. Hoje, já de volta ao Brasil, celebro a vitória domelhor ator e diretor do Festival, apelidado agora de PernambuCannes.

E termino minha lista leve, com o canadense Amour Apocalypse sobre amor em tempos de mudança climática fechando minha estadia, pulando os curtas do Brasil (perdi Samba Infinito com a Camila Pitanga) porque ainda tinha toda a programação do Marché, onde o Brasil era convidado de honra esse ano e minha bateria social não durou tanto.

Voltei ao meu país natal abastecida de histórias, agradecida pelo privilégio de atravessar (certas) fronteiras, fazer networking, ouvir novas perspectivas e projetos criativos, à beira da costa mais charmosa do Mediterrâneo. É muito bom ter para quem voltar, gerações para ser ponte e, em breve, partir de novo.

Postagens Recentes